+ Recuem e deixem Miley Cyrus crescer
Posted on: 05 Outubro, 2013 by aiav Filed Under: Artigos Comentários: Nenhum comentário

Chega. Chega de narizes empinados e os pânicos morais falsos. Chega de apontar o dedo. Chega de usar Miley Cyrus como um saco de boxe.

Graças à sua atuação de língua de fora nos MTV Video Music Awards neste verão – na qual ela usou dançarinas negras, os genitais de Robin Thicke e um dedo de espuma como adereços – e os seus vídeos com pouca roupa, a sr.ª Cyrus tornou-se num alvo fácil, um recetáculo para as nossas ansiedades raciais e sexuais. A deitar fora as correntes da Disney, a sr.ª Cyrus está a mostrar a certeza que se tornou uma ameaça às ideias estabelecidas de como as jovens artistas se devem apresentar.

Para alguns, o seu sucesso é visto como uma confirmação de que alguma coisa está a falhar. Apropriação deve ser tratado moderadamente, este argumento é usado, mas é uma narrativa cansativa e falsa. A cultura mais vibrante move-se a velocidade desconfortável.

E num momento pouco importante para o pop, com homens calmos a dominar, sr.ª Cyrus sentiu o vazio e tentou preenchê-lo, emergindo como uma figura polarizadora, ou talvez uma figura transformadora. As suas intrusões têm sido ousadas. Já não é suficiente para chocar só porque se quer – o melhor é aparecer com uma equipa inteira e também um piscar de olhos.

“Bangerz” (RCA), vai ser lançado na terça-feira, é o quarto álbum a solo de Cyrus, embora que não seja a métrica mais útil com a qual ela se moldou nos últimos anos. Simplificando, “Bangerz” é o primeiro álbum da sua era de adulta – Cyrus tem 20 anos – e é o primeiro que não é uma herança direta dos seus dias como o ídolo da Disney, Hannah Montana.

Sr.ª Cyrus mergulhou no hip-hop, assim como qualquer outro jovem na América. Na sua programação e som, “Bangerz” serve como um catálogo do agora, usando os últimos movimentos sem estar agarrado a uma ideia ou grupo. Há uns vocais decadentes de Future em “My Darlin’,” um bocado de country-rap de Nelly em “4×4,” algum funk pós-rap produzido por Pharrell Williams em “#GETITRIGHT.” (E isto não inclui o muito falado mas ainda por lançar remix de “Black Skinhead” de Kanye West e Miley gravaram após a sua atuação na entrega de prémios.)

Os resultados são dispersos, mas às vezes grandes, refletindo um artista que continua a fazer sentido das novas entradas. Ela trabalhou em grande parte com o produtor Mike Will Made It, um grande produtor hip-hop e R&B mas nada, até agora, de verdadeira força pop. Mesmo o seu sucesso é incomum – as músicas que ele criou para a sr.ª Cyrus são como estrondosos sistemas meteorológicos obstinados. O seu hit “We Can’t Stop” é uma canção teimosa e viciante, que nunca deixa a sr.ª Cyrus subir muito vocalmente. Mas o vídeo, com a sr.ª Cyrus em clima de festa, foi uma explosão no YouTube. De repente, a exaustão na música era clara, isto porque Cyrus foi exaustiva.

O seu segundo single, “Wrecking Ball”, foi um fenómeno da Internet ainda maior, em grande parte porque o vídeo apresentava sr.ª Cyrus – nua, mas com os seus Dr. Martens – em cima de uma bola demolidora. Ela está a cantar bem nessa música, mas a raiva e ressentimento na letra são características secundárias. É uma música que fala mais para os olhos do que os ouvidos.

Sr.ª Cyrus pode ser uma cantora impressionante, tanto com o poder (vejam a sua balada de 2009, “The Climb”) e tanto no tom (notem a rouquidão da sua voz em “See You Again”, de 2008, um dos seus primeiros sinais de vida após Disney). A hilariante canção de separação no novo álbum, mostra a voz de Cyrus, mas ela está apenas a provar um pouco de ‘hand-me-downs’ de Amy Winehouse. (Ainda assim, “I’m pressing ‘send’ on you” é um grande beijo).

Principalmente, entretanto, “Bangerz” não se preocupa muito com a voz da sr.ª Cyrus; é um álbum sobre textura e justaposição. Ele começa com a enjoada “Adore You”, sobre o qual Cyrus flutua facilmente. Em seguida, as musicas ficam mais escuras. “We Can’t Stop” move-se em “SMS (Bangerz)”, que copia um pouco da sua voz rouca e animada de ‘Salt-n-Pepa’ de “Push It”. Posteriormente, há dance-rock em “Someone Else”, além de Mike Will Made It produtor de “Drive”, e a suave “My Darlin”, na qual Future assume o seu Ben E. King em “Stand By Me”.

Em “We Can’t Stop”, Cyrus canta sobre drogas (“Toda a gente na fila para a casa-de-banho / A tentar conseguir uma linha na casa-de-banho”), em “# GetRight,” é o sexo intenso. Mas enquanto ela está a esforçar-se para mostrar o seu lado adulto, estes tópicos não dominam o álbum. A sua expansão é grande. É também menos hip-hop do que tinha sido anunciado.

Ainda assim, sr.ª Cyrus tem sido amplamente criticada pelas suas escolhas sonoras, como se a apropriação da cultura negra não fosse um padrão da cultura branca, como se ela não tivesse sido assim por gerações. Ela pode ter chegado ao seu gosto – não é como em anos atrás, quando ela insistiu que nunca tinha ouvido uma música Jay Z – e ela pode estar a fazer rápido e solto, sem maior compreensão do seu significado histórico.

Seja qual for o caso, é claro que as regras que ela está a quebrar pertencem a uma geração anterior, e não a sua própria. (Isto vale para a sua pós-erótica assumida da sexualidade, também.) E há uma abundância de precedente pop: Britney Spears virou-se para Pharrell e os Neptunes para amadurecer fora da sua fase bop, Justin Timberlake virou-se para Timbaland, e produtores de hip-hop como Polow da Don ajudaram a dar para pop stars banda há décadas.

Além disso, uma quantidade enorme do seu apelo é visual. Ela é, de repente, uma estrela pop de 360º. Com o seu cabelo cortado, vernizes brancos, VFiles como escolhas de moda, para os seus vídeos dirigidos por Terry Richardson, ela saltou para a além da classe pop em termos de apresentação. A sua coragem aparente tem mais a ver com a rejeição de quantos anos Miley parecia ter do que como ela soou. Estas escolhas ousadas têm ajudado Cyrus a preencher o vazio atual de um ídolo pop feminina. A sua concorrente mais próxima agora não é Lady Gaga – que parece ansiosa para abandonar o estrelato pop em favor de teatro experimental e barato – mas, provavelmente, Katy Perry. Não importa o quão doce a cor de imagem da sr.ª Perry é, as suas entranhas são o leite branco.

A emoção da sr.ª Cyrus é que é praticamente impossível saber como ela é por dentro. A sua mudança para a moda e hip-hop foi repentina, e mais eficaz do que se poderia ter esperado. 12 meses atrás, não havia nenhuma maneira de prever que ela iria aparecer numa música como “23″ (do próximo álbum de Mike Will Made It) como uma rapper de sotaque pesado – rap melhor do que do seu companheiro de música Wiz Khalifa, convenhamos – e então aparecem no vídeo a usar um “jersey” de Michael Jordan fatiado e picado nalgum tipo de combinação de top e cuecas. É ousado e estranho e, surpreendentemente, eficaz; se ela pode fazer isso, que outras visões de mundo ela pode habitar?

Afinal, esta não é a primeira quebra de Cyrus. Cinco anos atrás, aos 15 anos, ela posou sem top para Annie Leibovitz para a Vanity Fair, envolvida num lençol, mas não o suficiente para encobrir um temor da população. E os seus álbuns anteriores foram fortes da sua própria maneira, cheios de rebeliões pop-rocks malcriadas.

Sr.ª Cyrus protagoniza o “Miley: The Movement”, um novo documentário da MTV seguiu-a nas semanas que antecederam o lançamento de “Bangerz”, inclusive nos bastidores dos VMAs. Naquela noite, a gravar a imagem dela como um canhão solto da consciência popular, mas ela insistiu, o oposto era verdade. “Isto tudo é pensado na minha mente”, disse ela. “Não é uma transição. Eu sou a mesma humana, eu tenho o mesmo coração que tinha há cinco anos.”

Embora o seu desempenho poderia ter sido vista por muitos como uma confusão, Cyrus disse que era “uma confusão estratégica.”

É uma declaração muito mais lúcida do propósito de Britney Spears poderia ter dado no seu auge. Cyrus viu a cerimónia como um palco no qual ela poderia fazer um alto ‘splash’, e ‘splash’ ela fez. Para aqueles que rejeitaram o seu desempenho como impuro, ela não quer saber. O show, segundo ela, era “obviamente engraçado” – o que era. “Se eu realmente quisesse fazer um espetáculo sexual, eu não me teria vestido como um urso.”

No documentário, sr.ª Cyrus compara esse desempenho com os grandes momentos dos VMAs de Britney Spears, um ídolo pop de um tempo mais simples. Mas o contraste não poderia ser mais gritante. Britney Spears aparece em “SMS (Bangerz)”, uma canção do novo álbum, recitando sílabas com um fervor robótico. Ela também aparece por uns minutos no documentário da MTV – uma versão estendida do que será transmitido no domingo – acenando corajosamente como Cyrus explica a visão por trás da sua atuação, que foi tão ousada como as coisas que Spears costuma fazer, mas muito mais alegre e entendíveis.

Claro, a senhora Spears não entende completamente a sr.ª Cyrus, que está mais próxima a um espírito de Madonna, do que de todas as pessoas – as provocações do tamanho de estádios, a maleabilidade da imagem. Mas Madonna não tinha uma Madonna própria para ir contra. Cyrus está a canalizar, mastigando e a digerir várias gerações de divas pop transgressoras. O seu espetáculo não é sobre o tamanho do choque, mas as inesperadas reviravoltas no caminho. É desleixado e revigorante e, no seu melhor, interessante. Ela está a experimentar com a forma do estrelato pop – deixem-na viver.

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